sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Até em Rapa nui

É verdade. Até Rapa Nui, com capital em Hanga Roa, e população da ordem dos 6 mil habitantes, tem sinalização turística adequada, daquela como não há em Tomar. Não sabe o que é Rapa Nui, nem onde fica? Peço desculpa. Como os tomarenses em geral, e os eleitos em particular, sabem sempre tudo de tudo, nunca precisando portanto de esclarecimentos, esqueci-me momentaneamente  de seguir o estafado conselho do senhor de Lapalisse -começar pelo princípio. Vamos então a isso.
Rapa Nui é a designação local da Ilha da Páscoa, um pequeno território chileno no Oceano Pacífico, a várias horas de avião de Santiago do Chile:


Apesar de minúscula e muito isolada, trata-se de uma ilha extremamente rica em património, outrora sede de uma hoje misteriosa civilização, cujos principais vestígios são os moais, que se julga serem representações dos antepassados:




 











Pois até na pequena ilha da Páscoa, isolada na imensidão do Oceano Pacífico, há sinalização para turistas, como não existe em Tomar, nem sequer nalgumas praias portuguesas. Apesar de estarmos na União Europeia e no século XXI. Apesar de pagarmos impostos tão pesados e as mais variadas taxas:


A mim incomoda-me e  dá-me que pensar. A si não?

Festa dos tabuleiros em Lisboa?!

António Freitas
O cortejo dos tabuleiros merece respeito

Segundo o site “noticia.pt”

 A Casa do Concelho de Tomar e a Associação de Comerciantes de Alvalade, em conjunto com a Junta de Freguesia de Alvalade, promoveram no passado dia 9 uma Mostra de Produtos Tomarenses em Lisboa:



“Decorreu em Lisboa a apresentação de produtos tomarenses, mel, frutos silvestres e vermelhos, vinhos, doces, fumeiro, e os tradicionais e emblemáticos pares de Tabuleiros, bem representativos da Festa dos Tabuleiros. Foi um dia em que Tomar invadiu a capital com produtos e a sua Festa.
A mostra ocorreu no dia 9 Setembro, integrada na iniciativa “Há Vida no Bairro”, alegrando e enchendo a Avenida de Roma, a Praça de Alvalade, a Avenida da Igreja e as ruas adjacentes daquela zona lisboeta."

Mas que falta de verdade e de rigor. Basta ver as fotos, publicadas por Carlos Piedade Silva no Facebook, para constatar que os produtores de Tomar estiveram lá, mas faltou o público. O evento não foi visto por mais de 50 pessoas, e qual Avenida da Igreja!  Falando com os produtores presentes, concluiu-se que  a desilusão foi total. Nem para a portagem fizeram dinheiro nas vendas! Ou seja,  foi uma perda de tempo e redundante prejuízo
Não estive presente, mas vivendo no Bairro de Alvalade há mais de 30 anos, posso dizer que, tirando a Avenida da Igreja a determinadas horas, e o Mercado de Alvalade, o resto são ruas desertas de muita gente que ali mora, na sua grande maioria idosos, que para sair à rua têm que ter motivos para tal.  E não havia. 
A Casa de Tomar tem pergaminhos históricos, uma tradição, um estatuto, que não deviam permitir “alinhar” em  convites que nenhuma mais valia trazem a  Tomar.  Mas pior que a falta de público nesta mostra, alguém se lembrou, certamente por outras direcções da CASA de TOMAR o terem já feito, de promover um desfile de meia dúzia de tabuleiros, que não faziam o menor sentido, a dois anos da festa grande. E, pior ainda, o desfile tinha à frente uma senhora transportando a “Coroa do Espírito Santo”.
Ao que se chegou!
Jamais alguém o fez, ou teve essa ideia, numa festa que se quer candidatar a Património Imaterial da UNESCO, conjuntamente com Alenquer e os Açores. Levar o “símbolo sagrado da festa” num desfile pelas ruas de Lisboa, nunca mais pode acontecer!
Que se promova a Festa só nos anos em que se realiza. Que se leve aos Açores um tabuleiro e se faça a respectiva montagem, que se desfile com o ícone tomarense em determinados contextos. Mas jamais com “Coroas e pendões do Espírito Santo” que isso tem “palco” – as ruas de Tomar e só em Tomar. Em ano de festa, depois de escolhido pelo povo o mordomo, e a partir do Domingo de Páscoa do ano em que se realiza festa. A tradicional saída solene das Coroas!
Podem estar tabuleiros expostos, como ícones e símbolos bem tomarenses, mas desfiles avulsos, popularuchos, vão matar a festa e impedir uma candidatura vencedora. Não brinquemos!
A Festa Grande tomarense não tem “ donos”. Mas tem, até nova eleição de um mordomo, quem a represente com dignidade.  João Victal, o mordomo das mais recentes edições, que de nada disto soube, apesar de fazer parte da Assembleia Geral desta direcção da Casa de Tomar, eleita e em funções. Nada soube, não foi consultado, pois teria  logo dito – Não! E não lhe chamemos “Velho do Restelo” Há as tradições herdadas e o ter de ser assim, por uma questão de respeito pelos nossos antepassados. 
Para promover os seus produtos regionais em Lisboa, Tomar não necessita destas acções. Bem basta já, nalgumas procissões religiosas pelo concelho, ver os tabuleiros com bolos em vez de pão, e  em procissões irem juntamente com fogaças. Haja rigor! A genuinidade e a tradição devem imperar! Ser popular e festa do povo, não é ser popularucho, e aqui a responsabilidade deve ser pedida ao presidente da Casa de Tomar -Carlos Galinha- e a quantos tiveram a ideia de aceitar um desafio de uma Junta, que queria ser noticia . A  Junta de Alvalade, faz noticia e divulga como um grande evento o que  não passou de uma “fandangada” sem público.
Oxalá os agentes económicos de Tomar, e o que de bom temos, venham a ser melhor promovidos no MERCADO DE ALVALADE, dia 18 de Novembro, como contrapartida ao “logro” de 9 Setembro.

Texto editado por Tomar a dianteira - 3

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Renunciar à arrogância, adoptar a humildade

O primeiro ministro António Costa acaba de sofrer uma das piores humilhações da sua vida política, na sequência do discurso excepcionalmente duro, mas justo, do presidente da República. Disse que não demitia a MAI, mas aceitou a sua demissão. Eximia-se a pedir desculpa, mas acabou por pedir. Falava como se tudo tivesse corrido normalmente, mas acabou por reconhecer que houve falhas graves. Alardeava sobranceria, mas tornou-se mais humilde, pelo menos por agora e na aparência. Poder, a quanto obrigas! É uma evidente mudança de estilo.
Em Tomar, felizmente não houve até agora catástrofes com mortos, e oxalá nunca tal aconteça. Há contudo duas vertentes que convirá ter em conta. A principal, a evidente tendência autoritária da senhora presidente da câmara que, tal como António Costa até ontem, alardeia sobranceria satisfeita e auto-suficiência, mas denota também uma pouco cómoda susceptibilidade exacerbada. Prova disso é  um aspecto que me parece condenável em qualquer político, sobretudo na área do poder local. A sra. Dª Anabela Freitas confunde crítica exclusivamente política com ataques, ou até com ofensas pessoais. Óbvia carência de capacidade de encaixe. Tem todo o direito, bem entendido. Mas dificilmente irá longe na política por tal caminho.

Uma foto do escriba destas linhas na Ilha da Páscoa, em pleno Oceano Pacífico, a cinco horas e meia de avião de Santiago do Chile, a qual permite perceber melhor como consegue ele ver a situação nacional e tomarense de longe. É tudo afinal uma questão de distância e de treino.

A outra vertente é a triste situação em que se encontra o concelho. Apesar da senhora presidente alardear optimismo, garantindo que o primeiro mandato "foi para arrumar  a casa", o concelho e a cidade é que estão a ficar cada vez mais arrumados, no pior sentido do termo. Para disso se convencer, basta ter presente que, entre 2005 e 2009, no tempo do malvado do Paiva, (para usar a linguagem PS), o eleitorado concelhio cresceu 206 inscritos. Entre 2009 e 2013, em plena crise e com os malandros do PSD (novamente linguagem PS), na pior gestão camarária dos últimos tempos, o mesmo eleitorado diminuiu 1.414 inscritos. Finalmente, ultrapassada a crise, no excelente mandato da sra. Dª Anabela Freitas, entre 2013 e 2017, que segundo a própria correu muito bem e serviu "para arrumar a casa", desapareceram 2.496 eleitores. Há portanto qualquer coisa que não bate certo na argumentação da senhora presidente, agora reeleita com maioria absoluta de circunstância. (O que não surpreende, uma vez que Isaltino Morais também venceu em Oeiras. Com maioria absoluta, apesar de tudo.) Ultrapassada a confusão do último mandato do PSD, graças à vitória PS e à subsequente coligação com a CDU, como explicar que durante um mandato que correu bem e já sem crise a nível nacional, tenham desaparecido 2.500 eleitores em Tomar, praticamente o dobro do mandato anterior?
Agora cheia de optimismo e de satisfação, por ter conseguido inesperadamente uma curiosa maioria absoluta, porém sem planos consistentes, nem vontade de os encomendar, como tenciona a sra. Dª Anabela Freitas vir a dar conta do recado? Insistindo no império da palavra? Na conversa fiada para mobilar? A tomada de posse num cine-teatro, não augura nada de bom.
Diz o povo, na sua infinita sabedoria, que "Quando vires as barbas do vizinho a arder..." António Costa não usa barba, bem sei, mas mesmo assim sai bastante chamuscado da catástrofe dos incêndios. E a política da imagem parece ter os dias contados.
Os acólitos da senhora, cuja principal qualidade não parece ser a capacidade analítica objectiva, vão decerto, como é usual, tentar minimizar a questão da perda dos 2.500 eleitores durante o mandato passado. Estarão no seu papel. Bajular dá sempre dividendos. Mas olhem que a coisa é grave. Querem ver?
Considerem, como mera hipótese de trabalho intelectual, que cada um dos 308 concelhos do país, uns muito maiores, mas outros muito mais pequenos que Tomar, perdia em cada mandato autárquico 2.500 eleitores. Dava o bonito total de menos 770 mil eleitores ao fim dos quatro anos. O que implicaria que, 13 mandatos decorridos, não restariam mais eleitores no país (770.000 x 13 = 10 milhões e 10 mil eleitores, um pouco mais que a população do país.). Bela perspectiva, não é? E o concelho de Tomar fica muito bem na fotografia, não fica?
Para aqueles defensores socialistas mais empedernidos, que não conseguem tirar os óculos partidários para passar a ver as coisas como elas são na realidade, publica-se um quadro comparativo de cinco municípios da região, todos geridos por eleitos PS entre 2013 e 2017:


Em Leiria, que pertence a outra categoria, aumentaram os eleitores, porque fica na faixa costeira. Em Ourém, a perda de eleitores (1.197) foi menos de metade de Tomar, porque têm Fátima. 
Nos casos de Abrantes e sobretudo de Torres Novas, ficam onde? Têm o quê?

Tal como no caso dos sanitários, da sinalização turística, da limpeza do Nabão, do saneamento, do custo da água, da ligação ao Convento,  da ausência de planos convincentes,  e por aí adiante, deve ser Tomar a dianteira que está a ver mal. Tal como nas tragédias deste verão, os eleitores tomarenses se calhar dão corda aos sapatos apenas por causa do clima.
É o caso de quem escreve estas linhas, todavia com duas ressalvas importantes: A - Continua a pagar impostos e taxas em Tomar; B - Continua a votar  em Tomar. 

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Para além da conversa fiada

Indo ao osso da questão, a falta de equipamentos turísticos básicos em Tomar nada tem a ver com custos, complexidades ou prejuízos para a paisagem, como é alegado no caso das escadas mecânicas, por exemplo. Resulta apenas da incompetência dos quadros da autarquia e da lamentável auto-suficiência balofa dos eleitos. É verdade que a questão do estacionamento na cidade e do subsequente acesso pedestre rápido ao Convento é complexa e bastante onerosa. Mas há coisas bem mais simples e baratas que a autarquia também ainda não fez, por manifesta incapacidade. A sinalização turística, por exemplo.
Em Tomar, actualmente, só a Mata dos sete montes tem sinalização para pedestres. Não sendo uma maravilha por aí além, também não envergonha. No chamado núcleo histórico não existe qualquer indicação específica para quem ande a pé, excepto as miseráveis chapinhas "Sinagoga", ali na esquina da Rua direita com a Rua nova, que na prática só consegue ver quem já sabe que elas  lá estão. O resto é sinalização para automóveis. Uma vergonha.
Para que se possa comparar, a seguir se publicam fotos com painéis de sinalização na cidade de Toledo. Trata-se de indicações só para pedestres, devidamente diferenciadas por cores. Fundo vermelho ou rosa para monumentos e outras curiosidades turísticas. Fundo verde para ruas e praças. Fundo branco para serviços administrativos, poder local, hotéis e saídas da cidade:









Além disso, há também indicações específicas para cada bairro com interesse turístico:


E indicação de acessibilidades especiais:


Será que tudo isto é assim tão caro ou complexo? É claro que não. Existe em qualquer cidade turística por esse mundo fora.
Em Viena de Áustria, por exemplo, indicando a distância em metros e o eventual transporte a usar:


Na Holanda, com indicação do tempo de cada percurso a pé:



 Ou na Patagónia, com a quilometragem até à capital do país e à extremidade norte do continente:


Instalar uma sinalização turística adequada, só exige funcionários superiores competentes e autarcas com vontade e que percebam bem para que se candidataram. Que não foi de certeza só para dar música ao pessoal. De conversa fiada já estamos todos fartos, pelo menos os que não andamos neste mundo só por ver andar os outros. 




terça-feira, 17 de outubro de 2017

A autarquia e o respeito pelos cidadãos

Esta foto foi obtida na tarde de terça-feira, 17/10/2017 e mostra um aspecto das obras actualmente em curso na Casa Vieira Guimarães, ao fundo da Corredoura:


Trata-se de obras indispensáveis, que consistem basicamente na limpeza e posterior pintura das fachadas. O problema reside na maneira como estão a ser feitas. Mais precisamente no que se refere aos andaimes. 
Se fosse um prédio particular, tinha de haver uma licença de ocupação da via pública e, naturalmente, um obrigatório corredor de circulação para os peões. Porque é óbvio que durante a lavagem e a pintura do prédio, não se pode transitar pela galeria sob os andaimes, que de resto foi vedada, o que está correcto em termos de prevenção.
Tratando-se de uma obra da autarquia, não há corredor de passagem para peões. Dava muito trabalho. Os cidadãos que se desenrasquem, usando a faixa de rodagem dos veículos. Ou atravessando para o lado oposto, obrigatoriamente fora da respectiva passadeira. 
É apenas um detalhe, porém muito elucidativo no que concerne ao respeito pelos direitos dos cidadãos. Se houver um acidente, será apenas mais um azar. Como no caso dos incêndios.
Não se trata obviamente de criticar os eleitos, que não podem ver tudo nem estar em toda a parte. Mas há funcionários para fiscalizar estas coisas, que pelos vistos andam distraídos. Porque será? 

Nunca se sabe...

Portugal é um país de brandos costumes e Tomar uma terra de costumes demasiado brandos em certas áreas. Apesar disso, é de elementar prudência ir sempre pensando que Nunca se sabe.
A peça que segue está muito afastada do âmbito deste blogue. Mesmo assim, pareceu importante publicá-la, entre outras coisas para homenagear todos aqueles que honestamente lutam de forma pacífica por uma informação livre ao serviço da comunidade. Trata-se de uma notícia publicada no LE MONDE online de 16/10/2017, actualizada em 17/10/2017.

"Em Malta, uma blogueira que denunciava casos de corrupção foi assassinada"

"Cronista em vários meios de comunicação, muito conhecida graças ao seu blogue muito popular, Daphne Caruana Galizia morreu ontem na explosão do seu carro de aluguer"

"Uma vez mais, Daphne Caruana Galizia acabava de publicar no seu blogue um artigo sobre um caso de corrupção implicando um político maltês. Na sua habitual escrita rápida e nervosa, expressou mais uma vez o seu profundo pessimismo perante essa epidemia local: "Doravante há vigaristas por todo o lado. A situação é desesperada."
Publicada às 14H35 de 16/10/2017, a frase adquire agora contornos premonitórios. A blogueira sua autora foi assassinada meia hora mais tarde, aquando da violenta explosão do carro de aluguer em que se deslocava. A viatura foi depois encontrada pelos serviços de socorro num terreno agrícola ao lado da estrada, próximo do seu domicílio. A natureza criminosa deste ataque contra uma figura da informação local que tinha muitos inimigos, não oferece quaisquer dúvidas. O primeiro ministro maltês, Joseph Muscat, que era um dos alvos principais de Caruana Galizia, classificou este acto de "bárbaro", acrescentando que "Hoje é um dia negro para a nossa democracia e para a nossa liberdade de expressão." Trata-se do primeiro assassinato político em Malta, desde os anos 80.
A jornalista agora desaparecida, historicamente próxima da oposição, tornara-se especialista na publicação de escândalos comprometedores implicando os políticos locais. O seu blogue em inglês era um dos mais lidos da ilha, frequentemente com mais leitores que os jornais tradicionais, nos quais ela colaborava ocasionalmente, mesmo se a maior parte dos seus rendimentos vinham da sua actividade como editora.

O estado em que ficou o carro conduzido pela jornalista

Publicou designadamente numerosos artigos sobre a implicação de gente próxima do primeiro ministro Muscat nos Panamá papers. O filho de Caruana Galizia, que estava em casa aquando da explosão, trabalha para o Consórcio internacional de jornalistas de investigação (ICIJ), que integra o LE MONDE [e em Portugal o EXPRESSO].
Com 53 anos, esta jornalista corajosa mas controversa tinha recentemente arranjado inimigos no seio do partido da oposição, que no entanto tinha apoiado aquando das eleições legislativas, em Maio. Publicou nomeadamente vários artigos em Agosto sobre o novo lider da oposição, Adrian Della, acusado de ter uma conta na ilha de Jersey, alimentada, segundo ela, por dinheiro proveniente da prostituição londrina. Esses artigos provocaram vários processos por difamação, de que ela fazia colecção, conjuntamente com as ameaças de morte, frequentes numa ilha tão pequena e dividida como Malta.
"Era muito independente na sua maneira de pensar", declarou Arnold Cassola, ex-líder do Partido Verde maltês. "Foi ela que revelou os maiores escândalos de Malta, mesmo se também arranjou muitos inimigos ao escrever por vezes coisas estúpidas."
É verdade que entre as manchetes, Caruana Galizia gostava também de criticar o vestuário dos membros da família dos responsáveis políticos, usando por vezes um vocabulário algo impróprio. No seu penúltimo texto de blogue, criticava a postura corporal de Adrien Della e "o seu pescoço que ultrapassa em 45 graus as omoplatas, como uma tartaruga".
Questionada pelo Le Monde em Maio sobre este tipo de textos de blogue, que muitos malteses consideravam que prejudicavam as suas restantes publicações, defendeu o respectivo estilo: "Penso que é importante, porque os políticos usam a sua imagem e até se servem dos seus filhos menores para fazer campanha."

Chocados, milhares de malteses desceram às ruas na segunda-feira à noite, para homenagear a jornalista e denunciar os bastidores pouco apresentáveis deste país membro da União Europeia desde 2004. O líder da oposição, Adrien Della, disse mesmo que este assassinato é uma "consequência directa do desmoronamento total do Estado de direito no país." "Isto é mais parecido com a Rússia do que com a Europa", confirma o eurodeputado Verde alemão Sven Giegold, que tinha conversado com Caruana Galizia no inverno passado, no âmbito da comissão de inquérito sobre os Panamá papers. "A sua paixão era revelar verdades secretas; mas numa sociedade estreita como Malta é algo muito difícil."
Apesar dos numerosos escândalos revelados por Caruana Galizia, o primeiro-ministro Joseph Muscat foi reeleito com larga maioria nas eleições legislativas de 3 de Junho passado."

Jean-Baptiste Chastand, Le Monde online, 17/10/2017
Tradução e adaptação de António Rebelo, UPARISVIII

domingo, 15 de outubro de 2017

Sem condições não vamos lá

Alguns instalados, também conhecidos como militantes do partido do Estado, no caso responsáveis pelo estado a que Tomar já chegou, não gostaram mesmo nada dos textos sobre Toledo. Em relação ao mais recente as reacções foram categóricas: Fica muito caro; é uma coisa boa para Toledo, que tem muito mais habitantes e muito mais turistas; ia estragar a encosta do castelo... Pobre gente!
Alguém do grupo com o qual visitei Toledo disse que um elemento da autarquia lhe pedira para tirar fotografias das escadas mecânicas, de forma a ver se era possível mandar instalar algo parecido em Tomar. De forma que, ponham-se a pau partidários do imobilismo. Até os autarcas agora reeleitos já andam a pensar no assunto, o que se saúda por ser coisa rara.
É certo que dotar a cidade com equipamentos à altura das necessidades, dos quais faça parte um acesso ao Convento por escadas rolantes, é algo caro e tecnicamente muito complexo, que exige planeamento atempado e competente. Também é verdade que tem de haver muito cuidado na discussão, no estudo e na elaboração do projecto global e dos sectoriais, de forma a evitar erros dificilmente reparáveis, entre os quais a possibilidade de alterar o aspecto actual da encosta do castelo, ou de gastar verbas em vão.. Mas tudo o resto não passa de balelas de circunstância. De falsos argumentos para esconder a simples recusa do progresso... e a evidente falta de gabarito de certa gente.
Toledo tem realmente mais do dobro dos habitantes de Tomar e recebe muito mais turistas, conforme já foi referido aqui. Mas que tem isso a ver com infra-estruturas turísticas, indispensáveis nos tempos que correm? Por um lado, se o empreendimento for bem planeado e a sua implementação bem conduzida, a câmara nada terá que investir e ainda irá receber. Por outro lado, há pelo menos um município cujo principal monumento recebe muito menos turistas que Tomar e que apesar disso já dispõe de ligação por escada rolante entre o núcleo urbano e o castelo:



 

Não, não fica em Espanha, nem no estrangeiro. Basta reparar na bandeira hasteada. É em Montemor o velho, a pouco mais de cem quilómetros de Tomar, e  as escadas mecânicas foram inauguradas em Junho de 2013. Três meses antes de eleições autárquicas.
Montemor o velho tem apenas 22 mil leitores, contra 34 mil em Tomar. O PS ganhou aí as recentes autárquicas, obtendo 51, 21% dos votos expressos, contra 40,22% do PS em Tomar, mas em ambos os casos os socialistas têm maioria absoluta, com 4 eleitos, contra três do PSD.
Em Montemor o velho a abstenção bruta (abstenção + votos brancos + votos nulos) foi de 41,1%, contra 49,6% em Tomar. Uma vez que em 2013 o PS conquistou a câmara de Montemor o velho à coligação PSD/CDS, mas com apenas 40, 45% e 3 eleitos em 7, parece óbvio que as escadas rolantes valeram, quatro anos após a inauguração, uma folgada maioria absoluta aos socialistas do vale do Mondego.
O administrador deste blogue sabe que há na autarquia tomarense quem não goste dele. É natural. Têm razões para tanto. Trata-se afinal de uma das raras vozes livres na informação local. Por isso, aqui deixa como testemunho de compreensão e de simpatia este guardanapo para se limparem, o qual é ao mesmo tempo um acto de justiça para com o autor do projecto de instalação das escadas rolantes em Montemor o velho, o arquitecto Miguel Figueira, que Tomar a dianteira não conhece pessoalmente. E com quem nunca teve qualquer contacto escrito ou presencial.
Quando autarcas e funcionários superiores municipais não se limitam ao show off e a receber ordenados e mordomias ao fim de cada mês, a obra aparece. E os municípios vão progredindo...

ADENDA

Para quem queira e tenha recursos para pensar um bocadinho nestas coisas da política local, dos equipamentos indispensáveis, da atitude da população, dos eleitos e dos funcionários superiores, aqui vai um pequeno quadro que mostra a diferença entre um concelho onde se trabalha em prol de todos e outro onde tem sido praticamente só show off e conversa fiada:

                                Fonte: https://www.autarquicas2017.mai.gov.pt/