sábado, 19 de agosto de 2017

Tomar a dianteira vai arejar ideias

Regressará ao convívio dos leitores no próximo dia 27. Pela manhã, como é habitual.
Até lá, votos de paz, saúde e boas férias quando seja o caso.

Sobre turismo, reportagem e opinião

Há por aí  confusão em relação ao que escrevo em Tomar a dianteira. Passo a tentar explicar.
Embora não sendo jornalista, nem acalentando a ideia de o vir a ser, procuro sempre nestas colunas nunca vender gato por lebre, que é como quem diz, opinião por factos provados. Tenho sempre o cuidado de separar os dois géneros. Ou faço reportagem ou opino. Em relação aos Pegões, por exemplo, em cinco textos de razoável tamanho, há apenas duas opiniões: 1 - A tutela do Aqueduto e do Convento Convento de Cristo, do qual faz parte, deve ser entregue ao Município de Tomar; 2 - A água deve correr de novo naquela obra de arte, de forma a restabelecer o eco-sistema que existiu durante quase quatro séculos. Tudo o resto é factual. Trata-se portanto de uma reportagem e não de uma opinião.
Para melhor explicitação da diferença entre opinião e reportagem, passo a tentar descrever como procedo para fazer uma reportagem, neste caso tipo peixe-espada: comprida, chata e saborosa.

O turismo é a nova galinha dos ovos de oiro, mesmo em Tomar, foi o tema de partida. Com a ideia de que, por falta de medidas atempadas, se corre o risco de matar a galinha. Eis no que deu.

Por favor não matem a galinha

Há turistas por todo o lado, para contentamento de todos. O turismo é a nova galinha dos ovos de oiro. Em Tomar acumulam-se os exemplos de que nem tudo vai pelo melhor nessa área. Tomar a dianteira andou por aí, para ver.
Além da gritante falta de sanitários, os problemas do estacionamento durante a época alta começam a ser aflitivos:




A este belo ramalhete, colhido junto ao Convento de Cristo, no qual se vê bem que nem sequer se respeita a paragem dos TUT, cabe acrescentar uma cena bucólica, porém algo miserabilista:

Entalada entre carros, uma família de turistas faz a sua refeição campestre na berma da estrada do Convento, imediatamente antes da Senhora da Conceição. Situação normal para os visitantes, mas estranha para os tomarenses, que sabem existir na Mata dos sete montes um magnífico parque de merendas, com sanitários, chafariz, mesas, sombras e contentores para o lixo:

O problema, neste como em muitos outros casos, reside na falta de sinalização. A única sinalética existente é esta, já no interior da Mata, e os turistas não adivinham:

Esteticamente será excelente. Em termos de localização e eficácia, há muito melhor. 

Além da evidente falta de sinalização adequada, para a qual a câmara já foi alertada dezenas de vezes nestas colunas, até agora sem qualquer resultado, há também o problema do estacionamento, particularmente premente durante a época alta do turismo, conforme documentado mais acima. E no entanto...
À entrada da mata, a situação é esta:



Um piso em muito mau estado e onze lugares de estacionamento pago. Olhando para os passeios enormes, não é difícil concluir que haveria lugar para 22 carros, ou 15 carros e alguns autocarros de turismo, caso fosse feito um aproveitamento mais racional do espaço. Para quê passeios tão amplos? O que faz ali a estátua do Infante D. Henrique? Alguma vez ele tratou de florestas, ou foi sequer guarda florestal?
Um erro ocasional? De forma alguma. À entrada da cidade,  para quem vem de Leiria/Ourém, apresenta-se este autêntico penico, a que resolveram chamar rotunda:


O que visto de satélite, dá isto:


Mas as mesmas mentes brilhantes que aprovaram semelhante coisa para a entrada norte da cidade, sustentam agora que, do lado oposto, na entrada sul, o acesso principal, uma vez que por ali chega quem vem de Lisboa, não foi feita a rotunda no cruzamento Nuno Álvares Pereira/Torres Pinheiro/Combatentes da Grande Guerra/Ponte do Flecheiro, por falta de espaço:

Está-se mesmo a ver que há falta de espaço, não está?

Regressando à entrada norte, à zona da Várzea pequena, onde em tempos estacionavam 20 autocarros de turismo, por ocasião do 13 de Maio por exemplo, cabem agora apenas 24 automóveis, devido ao curioso arranjo urbanístico que ali foi feito:



Exactamente o mesmo sábio aproveitamento do espaço que já vimos à entrada da Mata. Perguntará o leitor, sobretudo se for um dos autores de tais obras de arte: Mas qual a diferença entre 24 lugares para automóveis e 20 lugares para autocarros de turismo. Pouca realmente. 24 automóveis transportam no máximo 120 passageiros, neste caso turistas. 20 autocarros transportam em geral 1.100 passageiros. A diferença é só de 980 turistas. Uma ninharia para quem depende do orçamento do Estado. Muito mais negócio para o dono de um restaurante, ou de um café, por exemplo. Tudo afinal uma mera questão de mentalidade.



sexta-feira, 18 de agosto de 2017

Visar o funcionamento correcto da economia do turismo para a democratizar

Jean Viard
Sociólogo, director de investigação científica no CNRS - Paris
Autor do livro "O triunfo de uma utopia, férias, lazer e viagens, a revolução dos tempos livres",
(Editions de l'Aube, Paris, 2015, sem tradução portuguesa)


"Mil e duzentos milhões de humanos vão visitar um país diferente daquele em que residem habitualmente, durante o ano de 2017. Em 1968 eram apenas sessenta milhões. Noventa e nove milhões virão muito provavelmente a França antes do final do ano, país com 62 milhões de habitantes "ao ano". O governo francês pretende atingir os cem milhões de turistas em 2020, que facultarão uma receita de 50 mil milhões de euros. Pouco a pouco, a humanidade vai-se assim conectando numa mundialização vivida, massiva, exponencial. Este fluxo gigantesco, o seu peso económico mais o seu peso mediático, transformaram-no por outro lado num alvo para os terroristas. A França, núcleo histórico do movimento turístico, já pagou por isso, tal como outros países do Mediterrâneo. Pensemos Bataclan, Nice, Champs-Elysées.
Forças políticas radicais começam também a contestar o "turismo de massa". É verdade que esse fenómeno é por agora muito minoritário, mas há que estar muito atento, porque não se deslocam milhões de humanos sem consequências, tanto para eles como para os residentes ao ano nos países de acolhimento. Sobretudo num período de incremento de nacionalismos, de ultra-esquerda violenta e de mobilização das sensibilidades ecológicas. Pensemos nas oposições aos Center Parcs, na Drôme [região francesa], nos manifestantes de Barcelona ou de Dubrovnik [Croácia]. Mas pensemos igualmente nalgumas críticas contra a empresa Aibnb [reserva de alojamentos particulares através da Internet].
Cada vez mais, a humanidade vai "visitar-se". Porque o principal objectivo é o outro, o seu território, a sua cultura, as suas paisagens, os seus monumentos, os seus divertimentos... A democratização em curso nas viagens é um desafio mundial imenso para fazer terra comum. Nalgumas regiões é já a principal fonte de emprego. Em França 7 a 8%. Cerca de 12% em Barcelona e nas grandes regiões turísticas. As empresas gaulesas exportam o seu savoir faire para o mundo inteiro. Pensemos Club Med, Pierre et Vacances, Accor hotels.
Mas pensemos igualmente na retoma do nosso modelo de parques naturais regionais, na Airbus e no TGV, em que a maior parte dos passageiros são turistas. Porque no turismo há mobilidade e por conseguinte todas as invenções para tornarem essa mobilidade mais rápida, mais fácil e mais segura. Na Europa, passámos de uma sociedade sedentária para uma sociedade quase bi-residente, na qual mais de 60% dos habitantes veraneiam todos os anos fora do seu domicílio habitual durante um certo período. Diz-se então que "foram de férias". Mas como é que este fluxo considerável é vivido pelas sociedades de acolhimento? Porque, se o turismo é desejo do outro, é também em larga medida a sua caricatura e a sua submersão.
Pensemos em Gordes, no coração do Luberon: qual é a relação entre esta estação turística e a aldeia rural arruinada, "descoberta" nos anos 1930? O sítio, bem entendido; as vistas, o clima, a vegetação, a arquitectura talvez. É verdade que sem o turismo talvez só restasse agora uma ruína no alto de uma colina, mas mesmo assim, como não perceber um sentimento local de invasão e de colonização?
Pensemos então ao nível de Barcelona ou de Praga. O fenómeno é o mesmo, mas a escala é outra. Sobretudo nas cidades vivas, povoadas, criadoras. Quase sempre, a implementação do turismo foi um projecto político rápido. Em Barcelona para acelerar a saída do franquismo, em Praga para criar riqueza após o comunismo.
Localmente tem-se primeiro a impressão que volta a haver vida, animação, multidão... Mas depois, como viver durante todo o ano com hotéis por todo o lado, alojamentos ocupados só durante alguns meses e residências de férias fechadas durante onze meses?
Por outra lado, a desorganização pelo terrorismo do turismo no sul do Mediterrâneo provocou o aumento brutal dos fluxos a norte, frequentemente para  populações mais modestas. É claro que numa grande cidade é menos perturbador que numa aldeia. Com o tempo, Paris e as cidades italianas mostram que as duas culturas podem misturar-se. Os locais vivem e divertem-se graças aos turistas que vivem e se divertem graças aos locais. Mas a cidade turística empurra para a periferia uma parte dos habitantes mais modestos, enquanto os trabalhadores temporários são mal alojados e frequentemente explorados.
Bem entendido, qualquer alteração brusca num território, muda-o. Hoje já não se pode pensar em Clermond-Ferrand sem Michelin. Na época, a vinda da empresa mudou no entanto de forma profunda a capital da Auvergne, mas ninguém protesta quando se trata de uma verdadeira fábrica, produzindo coisas, com operários e engenheiros. O lazer, a festa, o amor, não serão igualmente legítimos para alterar uma cultura? Curiosa sociedade esta, que prefere os abjectos à união entre os humanos! Mas não é afinal essa união que caracteriza a nossa cultura moderna? Tais são o desafio e o valor a defender. O turismo é mundialização para os humanos, as culturas, a arte de viver e de criar. Mas para isso é indispensável estudá-lo, valorizá-lo, dizê-lo e organizá-lo.
Sucede que o turismo parece um recurso fácil, sem necessidade de estudos, de investigação ou de desenvolvimento programado. Esquece-se que a hospitalidade impõe uma certa igualdade no direito a viajar entre os habitantes e os visitantes. Esquece-se assim o saber e o poder organizativo, para só se pensar no lucro rápido e que parece fácil. Até ao dia em que um extremista coloca uma bomba num local bastante frequentado!
Então sim, começo a pensar que não se podem acolher 100 milhões de turistas sem antes se mobilizar para irem de férias os 40% de compatriotas que nunca viajam em turismo. Não podemos continuar a deixar desenvolver-se, sem análise nem conhecimento idóneo, este extraordinário movimento de multidões que dá pelo nome de turismo de massa. Vai sendo tempo para a França, que é o primeiro e está entre os mais antigos países turísticos, de desenvolver a investigação científica e a formação nesta área. É necessário assegurar o funcionamento correcto da economia turística, para permitir o seu desenvolvimento e a respectiva democratização. Criando por exemplo um ministério do turismo, que assegure as práticas adequadas no território, na economia, na democratização e nas regras. E que favoreça também um grande centro de investigação científica e de ensino nestas áreas. Primeiro em França, depois na Europa. Não fiquemos à espera das próximas explosões.

Le Monde, Débats et Analyses, 17/08/2017, página 21
Tradução e adaptação de António Rebelo, UParisVIII

À conversa com o candidato laranja

Foi uma excelente iniciativa, que aqui agradeço publicamente, para ver se outros candidatos seguem este bom exemplo. José Delgado, agora cabeça de lista PSD, após a forçada renúncia, por razões de saúde, de Luís Boavida, (a quem mais uma vez envio um abraço fraterno, desejando um rápido e total restabelecimento) contactou-me por mail (anfrarebelo@gmail.com), propondo um encontro para trocar impressões. Aceitei prontamente e, face à dúvida de Delgado sobre o melhor local, apontei a sede social-democrata.
Foi pontual. Chegou num daqueles vistosos Mercedes que já foram jovens, mas nunca se tornam velhos. Apenas distintos. Revelou alguma tensão a abrir a porta da sede. É natural. Para muitos políticos locais o administrador de Tomar a dianteira é um pequeno monstro imprevisível, insaciável, insociável e incontrolável, por isso mesmo capaz, segundo eles, de arruinar a reputação de qualquer um. Exageros próprios dos microcosmos provincianos.
Começou por dizer que vinha de uma freguesia rural, a segunda que visitara nesse dia, no quadro da sua pré-campanha. Pousou dois cadernos de notas, perguntando se podia eventualmente tirar apontamentos do que eu fosse dizendo. Mostrou-se sempre cauteloso, atencioso, polido, procurando não destoar do candidato consensual que entende ser. Insistiu que é um homem  de trabalho, aberto ao diálogo e querendo aprender.


Contrariando informações anteriormente colhidas, segundo as quais interessa a alguns membros do partido que o PSD perca as próximas autárquicas, o que explicaria a inclusão de alguns nomes na lista, garantiu que o partido está unido no apoio à sua candidatura. Quando lhe falei da evidente ruptura na altura da escolha do cabeça de lista, reconheceu o facto mas asseverou que está disposto a colaborar com todos. 
Mais especificamente sobre o movimento Todos por Tomar e o seu líder António Lourenço dos Santos, disse que já o tinha convidado para integrar a lista, deparando-se com a  recusa dele, que disse só aceitar o primeiro lugar. A insistência minha, lá foi dizendo que vai falar de novo com o companheiro preterido, no sentido de procurar integrá-lo de alguma maneira da sua equipa.
Disse ser tomarense, filho daqueles que foram para Lisboa e singraram na construção civil. Mencionou duas filhas e uma vida de trabalho em Lisboa. Aulas no ensino superior, livros técnicos publicados, especialista reconhecido na área da segurança no trabalho e em estruturas. Experiência autárquica na Câmara de Lisboa, na equipa de Macário Correia e depois como funcionário precário até se demitir, quando ia passar a efectivo. Concorre para ganhar e confia no triunfo. Contudo, acaso seja vencido, tenciona assumir o lugar e as funções que lhe couberem, passando a viver no concelho de Tomar, onde  tem casa, no Poço Redondo.
-Aquilo que lhe enviaram e que já leu, não é o programa da minha candidatura, mas apenas uma listagem de intenções, disse a dado passo, acrescentando que a seu tempo sairá o citado programa.
Em conclusão, fica a ideia de um conterrâneo dialogante, franco, humilde, maleável, trabalhador, com ideias próprias e vontade de cumprir, mas sem um projecto mobilizador. Por enquanto?

Actualização

O semanário Cidade de Tomar de hoje, 18 de Agosto, inclui na página 5 uma entrevista com José Delgado. Tomar a dianteira 3 identificou dois pontos fortes. 1 - O candidato PSD proclama que vai vencer, o que já era previsível, mas adianta que ganhará com maioria absoluta. Em que se baseia, saberá ele e os seus. 2 - Proclama também que vai "fazer muito melhor do que já foi feito, pois [vai] trabalhar para o futuro, em conjunto com os melhores", que vai trazer para junto de si. Excelente ideia que, caso venha a concretizar-se, será a primeira vez desde o 25 de Abril.

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Um erro histórico


 Um dos pontos da ordem de trabalhos da reunião de 14/08/2017 da Câmara de Tomar era este:


Um dos grandes problemas locais é, no meu entender, a óbvia falta de informação completa e idónea. Apesar de haver sempre representantes credenciados dos jornais e rádios locais nas reuniões do executivo municipal, muito raras vezes se consegue saber em detalhe o que lá foi dito. Houve uma jornalista que, por duas ou três vezes, ainda ousou ir ao osso das questões, mas foi sol de pouca dura. É lamentável, mas é assim. Acontece em todas as terras pequenas e nos países menos evoluídos. E a culpa muito raramente cabe aos jornalistas, sempre manietados de alguma maneira.
No caso que agora abordo, foram tomadas decisões que me deixaram boquiaberto: Apresentar à Direcção-Geral do Património Cultural "Proposta de alargamento/redefinição da área de classificação do Centro Histórico de Tomar e do Aqueduto de Pegões, e redefinição da ZEP de Sellium; proposta de desclassificação das ruínas de Cardais/Ruínas da Nabância..."
Lê-se e volta-se a ler, pois é difícil de acreditar. Sem qualquer fundamentação publicamente conhecida; sem qualquer discussão alargada; sem qualquer informação prévia aos eleitores tomarenses; o executivo resolve propor ao escalão superior a "redefinição da Zona Especial de protecção de Sellium" e a "desclassificação das ruínas de Cardais/Ruínas da Nabância".
De que se trata afinal? No primeiro caso, daquela coisa ali atrás do quartel dos bombeiros, que uma senhora arqueóloga vinda de alhures e os seus discípulos, afiançam desde as respectivas escavações ser as ruínas de Sellium, sem contudo jamais terem apresentado provas concludentes daquilo que sustentam:


Local do alegado fórum romano de Sellium. Suponho que só após a aceitação pelo governo da redefinição da Zona Especial de Protecção virá a necessária e urgentre limpeza. A não ser que antes haja ali algum fogo. Mas como fica nas traseiras do quartel dos bombeiros, estes jogarão finalmente em casa.

No outro caso, o comentário não é meu, mas de Reinaldo dos Santos, no Guia de Portugal, volume 2, Estremadura, Alentejo e Algarve, página 491:


Ou seja, no caso dos pretensos vestígios de Sellium, nunca assaz documentados, o Município de Tomar propõe à tutela o reforço da Zona Especial de Protecção. Para proteger precisamente o quê? 
Inversamente, no caso das ruínas de Cardais/Nabância, com abundância de vestígios romanos documentados em 1926 (fragmentos de estátuas, moedas, medalhas, ladrilhos, colunas e mosaicos, alguns arruamentos) e classificadas como Monumento nacional, propõe-se a desclassificação pura e simples.  Com que base séria? Foram efectuadas escavações arqueológicas?
Quanto a Sellium, toma-se gato por lebre, ou nem isso. No caso da Nabância, o executivo propõe-se que passe de cavalo para burro. Brada aos céus, mas é assim!

Aspecto actual da ponte romana, mais tarde apelidada das Ferrarias.

Em 2016, aquando das obras de reparação e limpeza da zona da Ponte romana das Ferrarias, que a câmara realizou por administração directa, disse ao engenheiro presente no local que era uma excelente ocasião para escavar na margem esquerda, de forma a averiguar por onde e para onde vai a calçada romana, uma vez que os vestígios mencionados no Guia de Portugal em 1927 ficam a poucas centenas de metros. Calou-se e nada foi feito nesse sentido. Agora já percebi porquê. Não convém levantar lebres. A não ser a de Sellium. Porque será?
A actual câmara socialista que continue por essa via e depois não se queixe do que possa vir a acontecer-lhe logo no início de Outubro. Há erros históricos, que por isso mesmo são imperdoáveis.

Esclarecimento
Escrevi acima e mantenho "senhora arqueóloga vinda de alhures", não por bairrismo bacoco, mas apenas porque, sobretudo em História, é sempre importante saber o que está para trás. E os forasteiros raramente sabem, como é mais uma vez  evidente neste caso. Ou então até sabia, mas outros argumentos extra arqueologia foram mais fortes.

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Bom prenúncio?

A notícia ilustrada é do nosso colega Tomar na rede, ultimamente mais virado para os cartazes das festas locais e para as curiosidades. Desta vez, foi pescar ao Facebook uma publicação do candidato laranja José Delgado. Conforme pode ler aqui, lá em casa do cabeça de lista, no Poço Redondo, terra de "patos bravos", no bom sentido do termo, que é como quem diz berço de alguns daqueles que ajudaram a edificar a Lisboa moderna, da segunda metade do século passado, encontraram um ovo com outro ovo dentro.


Exactamente como aconteceu com a lista do PSD nabantino. Forçado a retirar-se devido a doença grave, o ovo inicial deu lugar ao ovo actual. Uma vez que, avançou José Delgado, simultaneamente ovo e autor da notícia, dentro do  segundo ovo havia um pinto, é meu entendimento que pode ter sido um excelente prenúncio para os laranjas nabantinos. Consultada uma bruxa que eu cá sei, a previsão foi imediata e categórica: -Aquele pinto era o futuro galo para cantar vitória na alvorada de dois de Outubro próximo. Mas como partiram o ovo, agora já não sei não. É até capaz de dar azar!"
Procurando remediar atempadamente a situação, Tomar a dianteira adquiriu imediatamente um galo de substituição, que a vendedora nos garantiu ser excelente cantador e tão pontual a despertar a vizinhança como um relógio Ómega, daqueles que ainda são fabricados na Suiça. 
Por conseguinte, galo já temos, para cantar vitória. Agora só falta conhecer o vencedor, a quem outro galo cantará. Todavia, pelo caminho que as coisas levam, Tomar a dianteira arrisca vaticinar que, vença quem vencer em Outubro, para os tomarenses será o mesmo galo do costume. É o destino...

TURISMO EM TOMAR

Uma pequena história tomarense ilustrada


Tanto a nível nacional como local, os políticos eleitos (e até alguns funcionários superiores) não abrandam nos gargarismos sobre o extraordinário desenvolvimento actual do turismo em Portugal. E em Tomar, está claro. Dão assim a entender que esse feliz incremento se deve à sua labuta e às suas respectivas acções de promoção. Será mesmo assim?
Uma vez que estamos em Agosto, pico da chamada alta estação turística, Tomar a dianteira resolveu ir indagar. Consultou primeiro o mais clássico dos guias turísticos em português - O Guia de Portugal, editado em 1927, quando o turismo ainda era só para a élite:



 Extremamente elogioso para Tomar,  escreve na página 456 que "Tomar é para todo o português, um lugar obrigatório de peregrinação, pois ignorá-la é desconhecer um dos pontos do País em que a arquitectura nacional atingiu um dos mais excelsos cumes da sua estranha originalidade e da sua beleza." 
Mais adiante, na página 483 e sobre a capela de Nª Sª da Conceição, é também bastante eloquente:

Perante isto, Tomar a dianteira recorreu à usual dúvida metódica. Será mesmo assim? Não estaremos perante um caso de excesso de nacionalismo doentio? Para melhor aferição, para tirar dúvidas, o melhor será comparar com um guia estrangeiro:


Trata-se de uma edição de 2014, mas como os monumentos não mudam, serve perfeitamente. Qual a opinião do autor sobre a capela da Conceição? Esta, na página 393:


TRADUÇÃO: "Capela de Nossa Senhora da Conceição: na descida do Convento. Fechada, excepto em ocasiões excepcionais. No alto da cidade, esta capela construída para mausoléu do rei D. João III, ilustra maravilhosamente a Renascença portuguesa. Equilíbrio de linhas e delicadeza do ocre repousam o olhar do visitante após os excessos do manuelino conventual. Pois! Mas quando é que começa a estar aberta regularmente?"
 Durante dezenas de anos, a chave da capela esteve à guarda da então Comissão Municipal de Turismo, que entretanto deixou de existir, e cujos serviços destacavam um funcionário, sempre que necessário, para acompanhar os turistas que pretendiam visitar aquele monumento.
Nos anos 80 do século passado, um director do Convento de Cristo pediu a chave e nunca mais a devolveu. Continua por esclarecer a razão de tal atitude, uma vez que as sucessivas equipas camarárias jamais se incomodaram com o assunto. Se calhar porque também são contra o turismo de massa, mas não querem que se saiba, por causa dos votos. António Paiva teve pelo menos essa franqueza. Disse sempre que era contra o turismo de pé descalço e agiu em consequência. Fechou o parque de campismo.
Procurando saber qual a situação actual, visto que o guia é de 2014, o que significa que o seu autor terá andado por aqui em 2013, Tomar a dianteira fez-se ao caminho. 
Assim à primeira vista está tudo muito bem indicado:


O pior é quando o visitante se aproxima e constata que o painel, em princípio informativo, agora já é só ornamental. Não exibe qualquer indicação:


Dirigindo-se para a capela, mesmo sem indicações precisas, o visitante bate com o nariz nas portas. Fechadas, sem qualquer indicação e em péssimo estado de conservação. A necessitar de pintura com urgência. Foi para isto que o tal director invejoso resolveu apropriar-se da chave?!:




Bem à maneira portuguesa, um exemplo da arte do desenrascanço: Alguém que decerto nunca logrou entrar para cumprir a sua promessa, por não saber a quem pedir a chave, resolveu deixar o votivo raminho de flores preso na porta principal:


Conclusão:
Perante casos como este, não resta qualquer dúvida.  Aqui em Tomar, o extraordinário aumento do turismo resulta da acção dos sucessivos executivos municipais. E, sobretudo, conforme salta à vista, da profícua acção da  direcção do Convento de Cristo. Todos muito atentos às necessidades dos visitantes. Como fica bem demonstrado nesta pequena história ilustrada.
Mesmo assim, contra toda a evidência, há quem teime em acreditar que, na área comportamental, aqui também é Europa. Será. Mas às vezes não parece mesmo nada.